quinta-feira, 22 de maio de 2025

Entre cartas, animais e células: por uma leitura transdisciplinar da biologia nas expressões da arte, da história e da ciência.

Entre cartas, animais e células

Entre cartas, animais e células: por uma leitura transdisciplinar da biologia nas expressões da arte, da história e da ciência.

Thiago Barbosa1

RESUMO

Este artigo propõe uma análise transdisciplinar de temas biológicos a partir de obras que, à primeira vista, não pertencem ao campo da biologia: uma correspondência diplomática africana do século XVIII, ilustrações zoológicas renascentistas e uma proposta epistemológica sobre o conhecimento como fenômeno biológico. A seleção dos materiais visa demonstrar, especialmente aos estudantes de ensino médio, que a biologia — longe de ser um conhecimento isolado em sua própria “caixinha disciplinar” — perpassa a arte, a política, a história e a filosofia.

Ao articular diferentes fontes e áreas do saber, este trabalho busca não apenas fomentar um novo olhar sobre os conteúdos escolares, mas também convidar os leitores, especialmente os jovens estudantes, a perceberem o potencial emancipador do conhecimento quando ele é compreendido como parte de uma rede viva de relações. O texto questiona a lógica escolar que compartimentaliza o saber e invisibiliza conexões fundamentais entre as áreas, promovendo uma reflexão sobre o papel transformador da transdisciplinaridade no processo educativo.

Palavras-chave: Transdisciplinaridade. Ensino de biologia. Epistemologia. História e ciência. Educação crítica.

1 INTRODUÇÃO

Ainda é comum que o ensino médio seja organizado em torno de “matérias” estanques, cada uma com seu livro, seu professor e sua prova. Biologia, História, Arte, Filosofia — cada uma em sua aula, em seu dia e em sua caixinha. Mas será mesmo que o mundo funciona assim? Ou melhor: será que o conhecimento sobre o mundo deveria ser separado por barreiras tão rígidas?

Este artigo nasce justamente da inquietação com essa organização artificial. Propomos aqui uma jornada de reflexão e descoberta, voltada não apenas para professores e educadores, mas principalmente para estudantes do ensino médio que sentem que os conteúdos escolares, muitas vezes, parecem desconectados da vida real. Partimos de três fontes que, em princípio, não têm relação direta com a biologia: uma carta diplomática entre o Reino do Kongo e Portugal no século XVIII (SAPÊDE, 2025), uma seleção de ilustrações de animais feitas há mais de 500 anos (DOMINGOS, 2017), e a proposta epistemológica de Humberto Maturana e Francisco Varela sobre o conhecimento como fenômeno biológico (MATURANA; VARELA, [s.d.]).

O objetivo é mostrar que a biologia não está restrita a aulas sobre mitose, ecossistemas ou cadeia alimentar. Pelo contrário, ela se expressa nas imagens, nas estruturas de poder, nas formas de organização social, na linguagem e até nas maneiras como sentimos e aprendemos. A ciência da vida está em tudo aquilo que vive — inclusive nas formas como nos organizamos enquanto humanidade.

Mais do que uma crítica ao modelo fragmentado do ensino, esta proposta convida o leitor a enxergar as disciplinas escolares como linguagens complementares, capazes de ampliar a compreensão do mundo. Uma carta escrita por um rei africano pode nos falar sobre a biopolítica do corpo colonizado. Um desenho antigo de um animal pode ensinar mais sobre evolução e anatomia do que uma tabela no livro didático. E uma discussão sobre como aprendemos pode nos levar ao coração da biologia celular.

Assim, unimos história, arte e filosofia à biologia não como adereços decorativos, mas como instrumentos de uma ciência mais viva, plural e crítica. Esperamos, com isso, contribuir para que estudantes e professores se reconheçam como protagonistas de um processo de aprendizagem que atravessa fronteiras — inclusive as das disciplinas escolares.

2 A BIOLOGIA NA HISTÓRIA: O CORPO, O PODER E A POLÍTICA

A biologia costuma ser entendida como a ciência que estuda a vida — suas estruturas, seus processos e sua evolução. Contudo, há momentos em que a vida humana, mais do que objeto biológico, torna-se campo de disputa política. E é justamente nesse ponto que a história se entrelaça à biologia, não apenas como pano de fundo, mas como dimensão constitutiva do que se entende por “corpo vivo”. Para exemplificar essa articulação, analisaremos uma fonte histórica pouco convencional no ensino de ciências: uma carta diplomática do século XVIII enviada por um nobre africano ao rei de Portugal (SAPÊDE, 2025).

Na carta analisada por Thiago Sapêde (2025), observamos um contexto de profunda assimetria geopolítica: o Reino do Kongo, situado no atual território da África Central, buscava negociar sua autonomia diante das imposições portuguesas. Mais do que diplomacia, a carta revela tensões raciais, religiosas, econômicas — e, sobretudo, biológicas. Isso porque, subjacente à troca epistolar, está uma disputa sobre quais corpos têm direito à liberdade, à fé, à terra, à dignidade.

Como a biologia entra nessa equação? Por meio daquilo que Michel Foucault (1999) denominou biopolítica — o conjunto de práticas pelas quais o Estado (ou outra instituição de poder) regula a vida dos corpos: quem nasce, quem morre, quem pode circular, trabalhar, casar, ter filhos ou ser escravizado. No caso do Kongo, a presença portuguesa implicava o controle direto de corpos negros, não apenas como força de trabalho, mas como objetos de catequese, imposição cultural e dominação física.

Ao abordar essa carta com os alunos, é possível problematizar a forma como o conhecimento biológico — especialmente os conceitos de raça e espécie — foi usado historicamente para justificar desigualdades. A pseudociência do século XIX, por exemplo, criou classificações “biológicas” para hierarquizar seres humanos, sustentando o racismo científico. E mesmo antes disso, no século XVIII, a própria ideia de “natureza inferior” dos povos africanos já servia como suporte ideológico à escravidão.

Portanto, compreender esse documento histórico é, também, uma aula de biologia — no sentido mais amplo e crítico da palavra. Ele revela como o corpo humano, alvo legítimo da ciência biológica, foi (e ainda é) instrumentalizado politicamente. E mais: evidencia a urgência de ensinar biologia de modo a não repetir os equívocos da neutralidade científica, que muitas vezes omite as implicações sociais do conhecimento.

Essa abordagem não significa “politizar” a ciência no sentido pejorativo que alguns costumam dar a esse termo, mas sim devolver à ciência o seu lugar no mundo real — um mundo onde as descobertas não são neutras, onde o saber impacta vidas e onde o ensino precisa dialogar com a história. Ao fazer isso, a escola cumpre uma função emancipadora: ajuda o estudante a entender que aprender biologia é, também, compreender o seu lugar no mundo e os mecanismos que o atravessam.

Nesse sentido, a carta do Reino do Kongo pode ser trabalhada em sala de aula como uma fonte rica para discussões sobre genética populacional, etnobiologia, bioética e colonialismo, permitindo que o aluno perceba como seu corpo é mais do que um conjunto de células — é um território de identidade, resistência e memória.

“E os pretos nascidos livres também são gente, como todos os outros da Terra”
(SAPÊDE, 2025, p. 9).

A frase acima não é apenas um apelo diplomático — é um grito biológico, que clama por reconhecimento da vida humana em sua totalidade, em sua dignidade, em sua complexidade. O estudante que compreende isso, compreende também que não há “matérias separadas”, mas sim múltiplas formas de enxergar e transformar o mundo.

Zoologia, Arte e Biologia como Rede

3 A ZOOLOGIA COMO ARTE: ANATOMIA, OBSERVAÇÃO E REPRESENTAÇÃO CIENTÍFICA

Se a biologia já encontrou sua interface com a história por meio da política dos corpos, ela também dialoga com as artes visuais por meio da representação da vida. Para muitos alunos, a zoologia — área da biologia que estuda os animais — pode parecer restrita à classificação ou à fisiologia. No entanto, sua história está profundamente entrelaçada com a observação estética e a necessidade de registrar visualmente os seres vivos, o que fez da arte uma aliada essencial da ciência. É essa relação que exploramos aqui, com base no material produzido pelo Museu de Ciências da UFPA (s.d.), A Zoologia nas Artes.

Desde o Renascimento, o desenho científico foi indispensável à construção do saber zoológico. Naturalistas e exploradores necessitavam registrar suas observações com exatidão — algo possível apenas com o apoio de artistas capazes de unir sensibilidade estética e precisão anatômica. Essa colaboração entre ciência e arte não é um capítulo encerrado: até hoje, ilustrações produzidas há mais de 500 anos ainda são consideradas referências científicas válidas por sua fidelidade estrutural (DOMINGOS, 2017).

A intersecção entre zoologia e arte nos oferece uma importante lição didática: o conhecimento biológico não é produzido apenas com tubos de ensaio ou microscópios, mas também com lápis, papel e olhos atentos. A habilidade de observar, desenhar e representar um animal envolve conhecimentos que atravessam fronteiras disciplinares: é preciso compreender proporções corporais, padrões morfológicos, anatomia comparada — ou seja, aplicar conteúdos da biologia — ao mesmo tempo em que se mobiliza a técnica artística e a expressão visual.

A prática do desenho científico, ainda hoje, constitui uma metodologia rigorosa de estudo, seja na universidade ou no ensino médio. Isso porque ela obriga o observador a prestar atenção aos mínimos detalhes e, com isso, desenvolver um olhar mais preciso e científico sobre a vida. Como destaca o Museu de Ciências da UFPA ([s.d.]), “o ato de desenhar exige tempo e paciência, promovendo um processo ativo de aprendizagem”.

Essa proposta encontra respaldo também nas diretrizes pedagógicas atuais, que valorizam a aprendizagem por meio de múltiplas linguagens e da articulação entre áreas do conhecimento. Quando o aluno é estimulado a representar um organismo a partir da observação, ele desenvolve habilidades cognitivas relacionadas à análise, síntese e interpretação — habilidades científicas fundamentais — ao mesmo tempo em que fortalece sua expressão estética e simbólica.

Mais do que isso: ao analisar obras artísticas zoológicas do passado, como as de Hans Hoffmann, o estudante percebe que o conhecimento científico também é fruto de seu tempo histórico. Ilustrações de séculos anteriores revelam tanto avanços quanto limitações de seu contexto, tornando-se documentos que narram a evolução da ciência. Isso aproxima a biologia da história da arte, da filosofia da ciência e da própria sociologia do conhecimento.

Como bem salienta Domingos (2017), há imagens que foram produzidas em contextos religiosos, políticos ou econômicos específicos, mas que, mesmo assim, conservam exatidão técnica surpreendente. Isso mostra que a ciência nunca esteve isolada em uma torre de marfim: ela sempre dialogou com a cultura. E ao mostrar isso aos alunos, rompe-se com a ideia equivocada de que a biologia se limita ao conteúdo “da prova”. O saber biológico é um modo de ver o mundo — e o mundo é, inevitavelmente, atravessado por imagens, sons, narrativas e símbolos.

Por isso, integrar zoologia e arte não é “enfeitar” a aula: é restaurar uma aliança antiga, potente e epistemologicamente legítima. Trata-se de apresentar o conhecimento como uma rede de relações — como uma ecologia do saber. E ao fazer isso, damos aos alunos a oportunidade de compreender a ciência como algo que também se faz com beleza, com sentido e com humanidade.

“A zoologia nas artes revela mais do que beleza: mostra a biologia como linguagem visual do mundo natural” (MUSEU DE CIÊNCIAS DA UFPA, [s.d.]).

Portanto, quando um estudante desenha um animal, ele não apenas representa: ele interpreta, aprende, conecta. Ele reconhece que o saber científico nasce do olhar cuidadoso e do gesto técnico — o mesmo que moveu artistas e biólogos por séculos. E talvez, nesse gesto, ele perceba que a biologia, muito mais do que uma disciplina escolar, é uma forma de pensar e representar a vida em sua totalidade.

4 A ÁRVORE DO CONHECIMENTO: AUTOPOIESE, COGNIÇÃO E VIDA COMO REDE

A biologia costuma ser ensinada como um conjunto de conteúdos fragmentados: células, tecidos, órgãos, evolução, genética. Essa compartimentalização dificulta uma compreensão integrada da vida. No entanto, a obra A Árvore do Conhecimento, de Humberto Maturana e Francisco Varela, propõe justamente o contrário: pensar a biologia como um sistema relacional, cuja base está na organização dos seres vivos, não apenas em suas estruturas isoladas.

Maturana e Varela são biólogos e epistemólogos chilenos que, na década de 1980, revolucionaram a forma como compreendemos a vida, a cognição e o próprio conhecimento. Para eles, todos os seres vivos são sistemas autopoiéticos — ou seja, sistemas capazes de produzir e manter a si mesmos em constante renovação estrutural. Essa definição simples tem implicações profundas: viver, para um ser vivo, é autoconstruir-se, reorganizar-se, adaptar-se continuamente.

A ideia de autopoiese rompe com a noção mecanicista tradicional da biologia, segundo a qual a vida é apenas resultado do funcionamento coordenado de partes. Em vez disso, os autores afirmam que um ser vivo é uma rede de processos que, ao mesmo tempo em que produz seus próprios componentes, mantém sua identidade (MATURANA; VARELA, 2001).

Mais importante ainda: essa autopoiese é indissociável da cognição. Em outras palavras, conhecer não é apenas um atributo de seres humanos conscientes; é uma característica de todos os seres vivos. A vida, em sua essência, é cognitiva, pois todo organismo interage com o meio e responde a ele de forma adaptativa. Assim, a biologia passa a ser não só o estudo da estrutura da vida, mas também do agir no mundo dos organismos.

Para os alunos, essa abordagem tem potencial transformador. Ao reconhecer que até mesmo uma bactéria conhece — no sentido de perceber e reagir a seu ambiente —, quebra-se o paradigma de que o conhecimento é exclusivo da razão humana. A biologia torna-se, então, uma ciência que trata não apenas de formas, mas de relações, de sentidos, de processos complexos e sistêmicos.

Essa mudança epistemológica também abre portas para conexões transdisciplinares. O conceito de rede, central para Maturana e Varela, pode ser facilmente associado a sistemas ecológicos, redes neuronais, cadeias alimentares, sistemas sociais e até algoritmos digitais. Ensinar biologia com base nessa lógica de interdependência ajuda os estudantes a perceber que o mundo é, em última instância, uma grande rede de relações interconectadas.

Por isso, o ensino da biologia deve ir além da nomenclatura. É necessário oferecer aos alunos um modelo de pensamento biológico sistêmico — e isso significa ensinar não apenas o que é um ser vivo, mas como ele se organiza, como interage com o meio, como gera conhecimento e como isso se articula com outras áreas do saber.

Na perspectiva da obra de Maturana e Varela, o conhecimento não é uma representação passiva do mundo, mas uma ação encarnada. O sujeito que conhece transforma-se e transforma o meio; logo, a aprendizagem também é uma forma de viver. Como afirmam os autores:

“Tudo o que é dito é dito por um observador a outro observador, que pode ser ele mesmo” (MATURANA; VARELA, 2001, p. 28).

Esse tipo de afirmação convida os estudantes a compreender que a biologia também é uma reflexão sobre o próprio ato de conhecer. E, assim, mais uma vez, desfaz-se o mito de que a biologia é apenas uma disciplina voltada para a memorização de conteúdos.

Quando inserimos essa discussão em sala de aula, ativamos nos alunos a consciência crítica sobre o que significa estar vivo, conhecer e aprender. E mais: evidenciamos que a vida — em toda sua complexidade — não pode ser reduzida a caixas de conteúdo ou à divisão entre ciências “exatas” e “humanas”.

Essa é a pedagogia da transdisciplinaridade: uma proposta que articula ciência, filosofia, epistemologia e ética. Ao apresentar A Árvore do Conhecimento aos estudantes, propomos não apenas uma biologia mais rica, mas também uma escola mais viva — capaz de refletir a complexidade do mundo que ela pretende explicar.

A Zoologia nas Artes Amazônicas

6 A ZOOLOGIA NAS ARTES AMAZÔNICAS: CIÊNCIA, IDENTIDADE E EXPRESSÃO CULTURAL NO MUSEU DE CIÊNCIAS DA UFPA

A proposta transdisciplinar deste artigo encontra no projeto A Zoologia nas Artes, desenvolvido pelo Museu de Ciências da Universidade Federal do Pará (UFPA), uma potente materialização de como o conhecimento biológico pode dialogar com a estética, a cultura e a identidade amazônica. Ao integrar ilustrações artísticas e linguagens simbólicas à exposição zoológica, o museu ultrapassa os limites da biologia descritiva e alcança um espaço educativo que valoriza a diversidade epistêmica.

“O objetivo principal da exposição é mostrar a conexão entre arte e ciência, destacando como a representação de animais na cultura amazônica pode enriquecer a compreensão da biodiversidade e estimular o interesse pelo conhecimento científico” (MUSEU DE CIÊNCIAS DA UFPA, [s.d.], s/p).

Essa iniciativa permite uma análise educativa de grande alcance, principalmente no contexto da educação básica. Ao demonstrar que os conteúdos zoológicos — como morfologia, classificação, comportamento e relações ecológicas — podem ser retrabalhados por meio de linguagens visuais e narrativas próprias da cultura amazônica, evidencia-se que o saber biológico não está confinado a manuais, laboratórios e aulas expositivas. Ele vive na floresta, na arte, na oralidade e na espiritualidade dos povos locais.

É justamente essa articulação que pode ser levada para a sala de aula como proposta pedagógica transdisciplinar: uma atividade que envolva a análise de obras de arte regional, acompanhada de discussões biológicas e reflexões sociais. Por exemplo, ao estudar mamíferos amazônicos como a onça-pintada ou o peixe-boi, o aluno pode explorar tanto sua classificação e adaptação ecológica quanto sua presença simbólica na iconografia indígena, nas lendas ribeirinhas e na produção artística contemporânea.

Esse tipo de abordagem fortalece um olhar decolonial sobre a biologia, em que os saberes locais não são tratados como folclore, mas como fontes válidas de conhecimento. Como aponta Boaventura de Sousa Santos, é urgente “descolonizar o saber” e valorizar “epistemologias do Sul” (SANTOS, 2010). O projeto do Museu de Ciências da UFPA caminha nessa direção, oferecendo um modelo de ensino que rompe com a lógica eurocêntrica de ciência única e abre espaço para uma ciência plural, sensível e situada.

Do ponto de vista da prática docente, essa proposta ainda oferece oportunidades para promover a inclusão e o reconhecimento de identidades regionais. Para o estudante amazônida, ver sua cultura representada no ensino de biologia é também um ato de afirmação. Para o estudante de outras regiões, é uma chance de ampliar horizontes e reconhecer a diversidade brasileira.

Além disso, a interdisciplinaridade se amplia: professores de artes, história, sociologia e língua portuguesa podem dialogar com o professor de biologia para construir projetos integradores. Dessa forma, o ensino de zoologia torna-se também uma prática cidadã, formadora de sujeitos críticos e conscientes de sua inserção em contextos culturais, históricos e ecológicos.

Ao tratar a arte como ferramenta de mediação científica, a exposição da UFPA legitima a ideia de que compreender o mundo natural exige sensibilidade cultural, e que representar a vida é também um ato político e pedagógico. Para o aluno do ensino médio, compreender isso é fundamental — não apenas para a prova do ENEM ou vestibular, mas para a vida em sociedade.

O Museu de Ciências da UFPA nos oferece, portanto, uma pista concreta de como superar a dicotomia artificial entre ciência e cultura, entre natureza e humanidade, entre saber e sentir. Apropriar-se disso no ambiente escolar é um gesto pedagógico necessário para a construção de um ensino de ciências mais humano, inclusivo e emancipador.

7 CONCLUSÃO

Este artigo procurou construir uma análise transdisciplinar sobre a importância da biologia no contexto educacional, abordando a zoologia não apenas como um conjunto de conceitos abstratos e isolados, mas como um campo de conhecimento vivo, interconectado com a arte, a cultura e a história dos povos. Partimos da ideia central de que a biologia, quando tratada em uma perspectiva de ensino interdisciplinar e transdisciplinar, pode romper com a visão fragmentada do conhecimento, promovendo uma educação mais integrada e reflexiva.

O estudo das práticas culturais e artísticas amazônicas, como exemplificado no projeto A Zoologia nas Artes do Museu de Ciências da UFPA, nos mostra que a biologia é, de fato, um campo dinâmico, que não se limita aos conteúdos curriculares tradicionais. A exposição, ao explorar a interação entre arte e ciência, oferece uma compreensão mais holística da biodiversidade, inserindo a biologia em um espaço de debate cultural, ético e social. Essa abordagem não só favorece a educação ambiental, mas também estimula os alunos a compreenderem as interações entre as diversas formas de saberes — sejam científicas, culturais, filosóficas ou espirituais.

Ao longo deste trabalho, ficou claro que a transdisciplinaridade permite que o ensino da biologia se conecte com diversas áreas do conhecimento, criando pontes entre a ciência, as artes, a história e a filosofia. Ao integrar essas diferentes dimensões, os estudantes não apenas adquirem conhecimento técnico, mas também desenvolvem habilidades críticas, reflexivas e criativas. A biologia, em sua essência, não é apenas uma disciplina que ensina sobre os seres vivos, mas também uma ferramenta para o entendimento de questões mais amplas, como o impacto humano sobre a natureza, a preservação ambiental e o respeito à diversidade cultural e científica.

É importante, portanto, que as escolas e os educadores adotem práticas pedagógicas que reconheçam o valor da transdisciplinaridade no ensino das ciências. Tais práticas não apenas enriquecem o aprendizado dos alunos, mas também os tornam mais conscientes de seu papel na construção de um futuro sustentável e inclusivo. Este modelo de ensino, que integra diferentes saberes e expressões culturais, é fundamental para uma formação que seja verdadeiramente transformadora.

A proposta aqui defendida é que, ao combinar o estudo da biologia com outras áreas do conhecimento, como as artes e a história, os alunos podem desenvolver uma visão mais complexa e completa do mundo natural e de sua relação com o ser humano. Assim, a biologia deixa de ser uma disciplina isolada, tornando-se um campo de conhecimento vivo, situado no cotidiano dos estudantes e imerso nas realidades culturais e sociais que os cercam. Dessa forma, a educação científica, ao se abrir para as artes e para as questões culturais, contribui para a formação de cidadãos mais críticos, conscientes e capacitados para enfrentar os desafios do mundo contemporâneo.

Este trabalho reafirma, portanto, a importância da integração dos saberes no processo educativo, e chama a atenção para o papel fundamental que a biologia pode desempenhar na formação de uma sociedade mais consciente, solidária e sustentável.

REFERÊNCIAS

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